Boletim Bedeteca #13
Neste Boletim destaque para três nomes e três actividades: Julie Doucet e o próximo Clube do Livro; Filipe Abranches e a exposição O Futuro é da Umbra e Nuno Duarte e a sua oficina BD Ao Quadrado.
Julie Doucet no Clube do Livro da BD
Adrian Tomine, Julie Doucet, Chester Brown, Seth e Joe Matt e os azulejos no Porto em 1995 no livro da D+Q dos 25 anos
Em Outubro de 1995, prestes a concluir os 30 anos de vida, a canadiana Julie Doucet passou pelo Salão Internacional de BD do Porto na sua 8ª edição. Estava acompanhada pelos seus parceiros de editora, Adrian Tomine, Seth, Joe Matt e Chester Brown e ainda pelo editor e fundador da conceituada Drawn & Quarterly, Chris Oliveros.
A foto que aqui publicamos é extraída do livro comemorativo dos 25 anos da editora “Drawn and Quarterly – Twenty Five Years of Contemporary Cartooning, Comics, and Graphic Novels” e documenta a presença destes autores na cidade do Porto, naquela que a própria editora designa como “a sua primeira exposição internacional”.
A carreira da artista estava em desenvolvimento - depois de um período de auto publicação - a D+Q iniciara a publicação de uma nova serie de Dirty Plotte em Outubro de 1990, que lhe proporciona o Harvey Award para Best New Talent no ano seguinte, e nesse mesmo mês de Outubro de 1995 publicava My Most Secret Desire.
Em circulação para Berlim nesse ano de 1995, é neste período que a artista começa a internacionalizar o seu trabalho com uma publicação com a editora francesa já prestigiada mas independente L’ Association com Ciboire de criss ! em Junho de 1996, antes de voltar a Montreal em 1998. Até 2007 continua a publicar nos dois lados do atlântico mas depois acaba por iniciar um longo período afastada dos comics e dedicada a outras artes.
Em 2021 a L’Association publica uma significativa antologia e diz a esse propósito: “É muito raro um autor de BD que oficialmente parou de trabalhar há vinte anos continue a ter uma influência considerável. Mais excepcional ainda quando se trata de uma autora”.
Precedido pelo inesperado Grande Prémio do Festival de Angoulême em Março desse ano, o regresso definitivo à BD é em 2022 – e mais uma vez na Drawn and Quarterly com Time Zone J.
E é a esta autora que se dedica o próximo Clube do Livro da BD onde, “à semelhança do que já se fez noutras sessões, se organiza uma leitura coletiva de passagens do livro My New York Diaries e se promove a exploração do caótico universo autobiográfico da autora noutras publicações como o livro My Most Secret Desire ou a revista Dirty Plotte (previamente uma coletânea de zines, editada entre 1991-98 pela Drawn&Quarterly)”.
Em Portugal a revista / fanzine Quadrado, no seu segundo número da segunda série de Outubro de 1995 – que funcionou com catálogo da referida edição do SIBDP – publicou uma breve da autora (Romance Alcoólico) precedida de um texto introdutório de Domingos Isabelinho.
A exposição O Futuro é da Umbra
ilustração: Rita Alfaiate
A Umbra é uma antologia de banda desenhada, publicada pelo autor Filipe Abranches, e cujo primeiro número foi lançado em 2019. É maioritariamente dedicada a géneros tais como a ficção científica, mas onde se cruzam elementos de horror, distopia, weird fiction, e fantasia. Cada número publica sempre histórias autoconclusivas, mas com a introdução de “Kriz-3”, de Fernando Relvas, abriu-se a possibilidade de histórias em continuidade. A preto-e-branco, num formato que vai procurando experiências diversas, ainda haverá espaço para novas explorações.
Esta exposição conta com a arte original ou impressões digitais de alguns dos autores portugueses e internacionais que participaram com histórias ou capas nos últimos 3 números, inclusive a Umbra 6, ainda com tinta fresca da impressão, lançado recentemente no ultimo Coimbra BD.
Fruto de uma pequena equipa de produção, onde a colaboração é íntima, a sustentação deste projeto tem sido garantida por campanhas de crowfunding, graças a um público fiel que sempre retorna, e a quem os editores estão muito agradecidos.
Escolham qualquer caminho: o futuro é sempre sob a Umbra!
INAUGURAÇÃO DIA 27 ÀS 16H00
NA GALERIA DE ILUSTRAÇÃO E BD MUNDO FANTASMA
BD Ao Quadrado: iniciação ao argumento em BD
Nuno Duarte
Era uma ideia antiga e que se vai concretizar no próximo sábado dia 27 a partir das 9h00 (nas instalações da Bedeteca).
As oficinas de introdução às praticas da BD são já (felizmente) muito comuns. Mas há muito tempo que queríamos promover uma que versasse a pratica do argumento e as adaptações da pratica de escrita ao universo e linguagem da BD.
E para isso nada melhor do que trabalhar com alguém que se tem dedicado - em diferente frentes - ao argumento e ao guionismo.
Vamos ser quase um dúzia a ter o privilégio desta experiência com o Nuno Duarte, que apresentamos aqui:
Nasceu em 1975 em Lisboa, crescendo e vivendo em Almeirim.
Estudou Direito, na Universidade Clássica de Lisboa e tem um bacharelato em Inglês da Universidade de Cambridge.
Escritor, guionista freelance e professor de escrita criativa e guionismo desde 2001.
Foi autor associado e guionista das Produções Fictícias, tendo trabalhado em televisão, teatro, cinema, animação, imprensa escrita e Banda Desenhada.
Guionista de projetos televisivos como “Manobras de Diversão”, “Bocage”, “Liberdade 21”, “República”, “Conta-me como foi”, “Bem-vindos a Beirais”, “Aqui tão longe”, “O mundo não acaba assim”, “Terra Nova” e “Lisbon Noir”.
É autor e argumentista das novelas gráficas “Paris Morreu”, “A Fórmula da Felicidade”, “O Baile”, “O outro lado de Z” e “O Punhal”.
Recebeu em 2013 o Prémio Nacional de Banda Desenhada de Melhor Argumento para Álbum Português pela obra “O Baile” e, em 2021 o troféu SPA Autores, na categoria de “Melhor Programa de Ficção”, pela série televisiva “Terra Nova”, em co-autoria com Artur Ribeiro, série que lhe valeria também o prémio Sophia 2021, na categoria de “Melhor Série/Telefilme”.
mais uma peça(s) do nosso acervo: a UMBRA
ilustração: esboços e imagem final de Pedro Potier para a capa da Umbra #6
De acordo com as palavras do seu editor – Filipe Abranches, a “Umbra é uma publicação antológica de banda desenhada de ficção científica, romance negro, distopia futurista ou apocalíptica”. Em boa verdade, o projeto confunde-se com o seu editor/coordenador, sendo que este divide esse trabalho de coordenação com Pedro Moura.
O projecto UMBRA, iniciado em 2019, já fez sair para os escaparates 6 números (até maio de 2026) da revista, tratando-se de antologias coletivas. Uma pequena nota pelo lançamento em simultâneo do primeiro número da Umbra, com a novela gráfica “SELVA!!!/Jungle!!!”, da autoria do Filipe Abranches, que ocorreu no Amadora BD.
Inicialmente, a ideia foi a de reunir “histórias curtas, auto-conclusivas, de autores de expressão portuguesa, a solo ou em colaborações, versando universos e géneros tais como os da ficção científica, distopias futuristas, ficção weird, podendo ainda cruzar-se com o policial e a fantasia”. Recorrendo ao editorial do #1, percebe-se que o propósito foi o de “criar uma plataforma com histórias de estrutura clássica, a preto-e-branco, apropriadas a um público alargado e amador das práticas de leitura de revistas de banda desenhada dos anos 1970 e 1980, atualizadas aos temas e preocupações de hoje”.
As características físicas apresentam as medidas de 270 mm x 190 mm (altura x largura), impressão a preto e branco em papel IOR de 120g, capa a cores com 260g e badanas de 80 mm, plastificada. Cadernos cosidos e colados à lombada com vinco à francesa, conferindo 112 páginas.
Passamos à descrição por número da revista das estórias e dos seus autores.
UMBRA #1 – 112 pág. Tiragem de 800 exemplares. Outubro de 2019
O número inicial reúne cinco histórias curtas, a solo ou em colaborações:
Estrada da Coca-Cola - João Chambel e João Sequeira.
Óscar - Pedro Moura e Filipe Abranches.
Herbicida - Pedro Moura e Sérgio Sequeira.
Carne - José Carlos Joaquim, Pedro Moura e Hugo Maciel.
Zodíaco – Sama.
Destaca-se a presença de um autor brasileiro – Sama, demonstrando desde a sua génese a abertura a outras latitudes.
UMBRA #2 – 112 pág. Tiragem de 600 exemplares. Setembro de 2020.
Este número 2 ocorreu em plena pandemia, reunindo 4 estórias auto-concluivas:
O coração atómico de Jan - Simon Roy.
Camping Gás - Pedro Moura e Bárbara Lopes.
Duas espadas - Pedro Moura e Jorge Coelho.
Os pesadões - Fernando Relvas.
Destaque para a introdução do autor canadiano Simon Roy e ainda para a disponibilização de uma estória curta do grande mestre Fernando Relvas, de 1978, recuperada com nova legendagem.
UMBRA #3 – 112 pág. Tiragem de 600 exemplares. Janeiro de 2022.
Apesar da ausência de publicação no ano de 2023, bem logo no início do ano seguinte é lançado o #3, sendo este número um marco significativo do projeto, pois foi a primeira campanha crowdfunding na plataforma PPL, com sucesso retumbante, uma vez que se conseguiu ultrapassar a quantia necessária para a edição. Todos os pormenores disponíveis em “Umbra #3” https://ppl.pt/umbra .Como não se deve mexer em equipa que ganha, desde então tem sido o meio utilizado para a edição das revistas. A destacar o regresso de David Soares ao universo da BD e a novamente a aparição do autor internacional - Simon Roy.
Intenções Comestíveis; ou Nova Tábua de Cebes – David Soares e Filipe Abranches.
Weep me not dead - Pedro Moura e Ricardo Baptista.
Tens a certeza - Bárbara Lopes
Naufragado com Dan, o gorila – Simon Roy.
UMBRA #4 - 112 pág. Tiragem de 600 exemplares. Julho de 2023.
O projeto continua como um processo aberto, em que algumas das premissas iniciais se vão alargando, aqui o ir para além dos autores de expressão portuguesa, com a inclusão de três autores fora deste âmbito: mais uma vez o canadiano Simon Roy, o norte-americano James Romberger e o francês Réza Benhadj. Um maior número de estórias, passando a ser seis, diminuindo inevitavelmente o número de pranchas por estória.
A torre - Filipe Abranches.
Lazarus - James Romberger.
Nic - André Oliveira e Rita Alfaiate.
As brasas e a lenha - Pedro Moura e Marco Gomes.
A joía da República Central - Simon Roy
Caranguejo Real – Um caso do Detective Paranormal Francês - Réza Benhadj.
UMBRA #5 - 112 pág. Tiragem de 600 exemplares. Novembro de 2025.
Mais uma das premissas iniciais a estilhaçar, mas por um bem maior, com a disponibilização de material de Fernando Relvas - “KRIZ3”, uma série interrompida com o fim da revista semanal Tintin, nos anos de 1980, e que terá continuação nos próximos números. Para além desta boa prenda, este número promove mais regressos de autores saudosos à banda desenhada como o Vasco Colombo e o Pedro Morais, e no topo ainda a capa que é de Rita Alfaiate. Sempre a abrir caminho para novos artistas inéditos no nosso País, a destacar a presença do peruano Gustaffo Vargas.
Assim voam as cegonhas - Pedro Moura e Marta Teives.
Branco Neve, 250gr. - Vasco Colombo.
KRIZ 3 - IO (1ª parte) - Fernando Relvas.
Trujillo - Gustaffo Vargas.
A Fronteira Selvagem - Vasco Colombo e Pedro Morais.
UMBRA #6 - 112 pág. Tiragem de 600 exemplares. Maio de 2026.
Continua a saga começada no número anterior, da autoria de Fernando Relvas, “KRIZ3 - episódio 2 - O Senhor dos Sussurros”, trabalho este inédito, apenas possível graças ao trabalho de restauro e legendagem efetuados. Ainda material de mais dois artistas internacionais, do neozelandês Scott Base e do japonês, Tokushige Kawakatsu.
O Senhor da Música - Miguel Garcia e João Sequeira.
Kris3 II. O senhor dos sussurros - Fernando Relvas.
O despertar de Kali - Scott Base.
Tokushige Kawakatsu - Uma história de gato.
e o que aí vem: UMBRA #7 - 112 pág. Tiragem de 600 exemplares. Data de publicação ainda em definição.
Como é já do conhecimento público vai-se dar continuação à saga Kris, com o 3.º episódio, mas agora com arte de Ricardo Baptista e argumento original do Pedro Moura, sobre o universo deixado por Fernando Relvas.
Muito provavelmente, a campanha crowdfunding na plataforma PPL poderá arrancar brevemente, e se atingidas as verbas necessárias, quem sabe se num festival próximo, em outubro próximo pode ser que haja novidades, e até com um ou outro caderno a cor!
A banda desenhada em termos de publicações encontra-se, a meu ver, no seu maior apogeu de sempre. Nunca houve tanta oferta no mercado, o que torna este tipo de projetos, de índole mais independente, uma verdadeira pedrada no charco, não apenas pela sua persistência, mas pela continuidade em disponibilizar não só novos autores, mas a recuperar e trazer de volta ao grande público alguns artistas “esquecidos”. Para além disso, a possibilidade de aceder ao trabalho de artistas internacionais nunca publicados pelas nossas terras. Muitos parabéns, numa primeira instância ao Filipe Abranches, e num segundo tempo o nosso bem-haja ao Pedro Moura.
texto de Fernando Pau-Preto
porque nem só de desenhos …
foto de uma foto de Vivian Maier
Desconhecida em vida mas descoberta depois para a posteridade, Vivian Maier (1926-2009) foi uma excelente fotografa do quotidiano e das cidades onde viveu ou por onde passou (essencialmente Nova Iorque e Chicago).
Como poderão comprovar se forem visitar a sua Antologia - exposição presente ainda até 30 de Agosto deste ano no Centro Português de Fotografia na Antiga Cadeia e Tribunal da Relação do Porto no muito apropriadamente chamado Largo Amor de Perdição.
E no meio das centenas de espantosas fotografias, encontramos esta que documenta um especial (e já perdido) momento do quotidiano das grandes cidades: a publicação de comic strips nos grandes jornais (e em grandes formatos como se percebe aqui).
No caso os celebres Peanuts de Charles Schultz (1922-2000).
textos deste Boletim: Júlio Eme e Fernando Pau-Preto
Horário
A Bedeteca está aberta de Quarta a Sábado, das 15h00 às 19h00. Visitem-nos.
Até ao próximo Boletim!








