Boletim Bedeteca #12
Regressamos com a efeméride que precisa de ser assinalada: os trinta anos da Bedeteca de Lisboa
Lisboa a dançar com a BD - trinta anos depois
ilustração João Fazenda
Habitualmente falamos de histórias. De BD. Hoje queremos falar de Historia. Da BD. O H maiúsculo justifica-se e hoje queremos utiliza-lo. Fazer justiça.
Podemos não ser historiadores e dizem os manuais que a análise histórica carece de distância temporal e afectiva. Para ser credível e valorizada. Mas como já explicamos, não somos historiadores, mas temos memória (num tempo em que ela parece não contar muito) e somos apaixonados. E, portanto, apesar das razões que nos dizem que não podemos fazer análise histórica, atrevemo-nos a abordar a história da BD justamente com esses prismas. Quem sabe, um dia, quando os verdadeiros historiadores se debruçarem sobre este período, poderão - nessa análise - ter em atenção estas memórias vividas e afectivas e estas opiniões contemporâneas aos factos.
Hoje, 23 de Abril de 2026, faz trinta anos que abriu a Bedeteca de Lisboa. Na BD Portuguesa há um antes e um depois da Bedeteca de Lisboa. Estamos portanto a falar de um marco. Histórico.
uma aposta consistente e estruturada
ilustração: Pedro Burgos
A Bedeteca não surgiu do nada. Houve algum trabalho anterior e muito dele já com o apoio da edilidade lisboeta. Mas o trabalho que desenvolveu (principalmente nos seus primeiros cinco anos de vida) foram e continuam a ser o único exemplo de uma politica pública estruturada na BD em Portugal.
Dizia-se na publicação Hoje a BD 1996 e 1999: “Aparentemente o que aqui nos traz é coisa morta. Não aparece na televisão, não abre polémicas nas páginas de opinião dos jornais, não divide o país, não frequenta os estádios, não envolve milhões de contos, e portanto, não aquece nem arrefece. A banda desenhada não é mais do que um objeto simpático, demasiado infantil para ser levado a sério, demasiado ambíguo para ser respeitado, demasiado popular para ser artístico”.
Talvez por isto tudo, nunca teve - até então - um investimento público pensado e estruturado, generoso e empenhado, como o que foi feito neste projecto.
A uma forte base (um acervo rico, alargado no tempo e na variedade), acrescentou todo um programa que tornou relevante e eficaz a ideia de uma biblioteca especifica de BD: pendurou originais de autores nas paredes num programa expositivo intenso e diverso, promoveu a investigação e o conhecimento, conservou e adquiriu originais de autores nacionais, patrocinou, encomendou e publicou obras de autores nacionais, promoveu o debate e a conversa, desenvolveu programas pedagógicos, investiu em iniciativas estratégicas (Salão Lisboa), alargou horizontes para a ilustração e a profissionalização (Ilustração Portuguesa), apostou decididamente na internacionalização da BD portuguesa, alargou horizontes de conhecimento no que respeita a diferentes autores e correntes da BD internacional, em suma pôs no terreno um imenso programa, coerente, bem pensado e bem executado.
aposta em autores nacionais
ilustração: Filipe Abranches
Antes tinha havido a LX Comics a única revista que, a seguir à Visão, procurou dar espaço e oportunidade para que a BD nacional encontrasse um laboratório de experimentação e desenvolvimento.
Consequente e naturalmente, a Bedeteca de Lisboa dedicou um dos seus principais eixos de acção à BD nacional e, neste caso concreto, aos novos autores.
O processo culminou na segunda encarnação da LX Comics agora em formato de colecção de pequenas narrativas onde diversos autores tiveram a sua primeira oportunidade de publicação e visibilidade.
Mas antes disso, quer publicando na sua própria chancela, quer co-editando com diversas editoras (Assírio & Alvim; Cotovia; Baleia Azul; Polvo; ASIBDP, Edições Afrontamento; Íman Edições; Fréon, Cornélius; Amok) teve um papel fundamental no desenvolvimento da edição de BD (e de algumas editores especializadas) nesse fim do século XX.
E soube ainda tornar-se eixo central de desenvolvimento de projectos vários e multifacetados, em que desafiou outras instituições e criou momentos de trabalho (remunerado obviamente) e visibilidade para estes autores: Carris e Metropolitano de Lisboa (Transcomix #1 e 2); Fnac (Agenda 1999); Ministério da Educação e Diário de Notícias (O 25 de Abril aos Quadradinhos); Centro de Documentação 25 de Abril e Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Uma Revolução Desenhada, O 25 de Abril e a BD).
E em momentos especiais invadiu as páginas do jornais com todos estes autores como o Jorge Silva (parceiro e cúmplice deste projecto) conta aqui.
investigação e desenvolvimento
ilustração: Nuno Saraiva
O Palácio do Contador-Mor não foi só a sede da Bedeteca de Lisboa. Foi também o local onde confluíram muitos protagonistas da BD nacional nesses anos de intensa actividade da Bedeteca.
Entre eles diversos estudiosos e investigadores que tiveram oportunidade de desenvolver um trabalho crucial para o conhecimento e recuperação de obras fundamentais da BD portuguesa. A Bedeteca publicou Os Comics em Portugal, Uma História da BD de A. Dias de Deus e Leonardo de Sá e trouxe novamente à estampa e/ou expôs uma séria de obras da BD nacional de todo o século XX (sem que tivessem o quase omnipresente tema dos descobrimentos): Raphael Bordallo Pinheiro; Carlos Botelho; Stuart de Carvalhais; Sérgio Luiz e Guy Manuel; Cottinelli Telmo ou Júlio Resende.
Herdou e deu continuidade ao fanzine / revista Quadrado e publicou uma dinâmica newsletter, a Contador Mor.
Polvilhou a sua programação de autores internacionais diversos e diversificados num programa que culminou no Salão Lisboa e revelou obras e autores até então por cá desconhecidos (e na verdade muitos deles ainda hoje em dia pouco editados em solo nacional): John Bolton; Dave Mc Kean; Lorenzo Mattotti ou Ben Katchor entre outros.
Desenvolveu trabalho na internacionalização da BD nacional com destaque para a exposição e catálogo Le Portugal em Bulles, 150 années de la bande dessinée portugaise no Centre Belge de la BD em 2000, mas principalmente com Perdidos no Oceano / – 17 autores Portugueses no Festival International de la Bande Dessinée d’ Angoulême 1998, organizada em conjunto com o Amadora BD e o Salão do Porto e que terá sido, até agora, a mais importante montra da BD nacional no mercado internacional. E - opinião do autor deste texto - factor espoletante da Bolsa de Criação Literária para a BD iniciada no ano seguinte.
e agora?
ilustração: Miguel Rocha
Hoje restam os livros. Estão lá mas sentem-se muito sozinhos. Falta-lhes a dinâmica que se deve criar em torno deles. As exposições, as conversas, as tertúlias, as edições, o trabalho de investigação, o apoio à criação e edição….
Se, como diz um adagio popular, a história é feita pelos vencedores, é importante que nos declaremos como tal e que assim inscrevamos na História e recordemos estes momentos históricos da BD nacional e assinalemos como foram importantes e como ainda o são.
Até porque num momento em que parece haver (malgré algumas polémicas deslocadas) um interesse e investimento das entidades públicas no estabelecimento de algumas medidas (multiplicação das Bolsas de Criação Literária; Prémio Nacional de BD) recordar e colocar as coisas numa perspectiva é fundamentalmente um diálogo com o presente.
o seu a seu dono
ilustração: Pedro Burgos
Se a existência politica deste projecto se deve a João Soares, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa neste período inicial da Bedeteca (1996-2001), o ânimo, o pensamento e a acção deve-se essencialmente ao seu primeiro director João Paulo Cotrim.
Sobre o JPC deixamos aqui o texto publicado em sua homenagem no Público on line de 26 de Dezembro de 2021 após o seu súbito falecimento:
“Conhecemo-nos algures a meio dos anos 80 sentados numa cave fria da Moreira de Assunção numa qualquer reunião com as temáticas políticas que, sempre nos aproximaram, mas nunca foram fundamentais nos desenvolvimentos posteriores (objecção de consciência, na agenda, muito provavelmente).
Já na altura ele era jornalista e espelhava a sua imensa criatividade na escrita e sua impulsividade na criação de publicações com e em títulos diversos.
Reencontramo-nos um par de anos mais tarde no seio da paixão que nos uniu desde então e para sempre, a Banda Desenhada, num Salão do Porto de 1989 e passamos a noite inteira desde o Ferreira Borges aos tascos da ribeira a comungar ideias e projectos, a congeminar futuros que, felizmente, em grande parte conseguimos levar para a frente sempre juntos e no seio de imensos colectivos.
Desde então o João Paulo foi acompanhando o que aqui a norte nós conseguimos fazer com o Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto e nós fomos acompanhando o imensurável e ainda não totalmente reconhecido trabalho que ele realizou em prol da BD nacional principalmente com a criação e com os anos iniciais da BEDETECA DE LISBOA, equipamento Cultural do Município lisboeta onde – com a confiança e o apoio de João Soares - ele conseguiu fazer (até ao fim dos anos 90) um exemplo (sem paralelo) de uma exemplar politica pública em prol de uma arte que é – no rol de todas as artes – uma arte normalmente arredada das preocupações da gestão pública.
Coroa de glória dessas colaborações (esta também com o Festival da Amadora) foi conseguirmos levar uma BD praticamente inexiste e insignificante – mas nossa - ao mais importante Festival de BD, o de Angoulême (em 1998).
O João Paulo era um homem de imensas parcerias e eu fui apenas mais uma delas. Gosto de pensar que tínhamos em comum o podermos pensar fora da carroça, mas conseguir andar nela. Termos uma postura à margem dos sistemas e conseguir trabalhar com eles. Que foi o que fizemos muitas vezes ele na Bedeteca e na edilidade lisboeta, eu no Porto e na autarquia portuense.
O João Paulo era também um homem de muitos talentos e interesses. A Banda Desenhada continuou a aproximar-nos, mas o afastamento pratico dele não impediu a continuidade da amizade e do trabalho em comum ao longo de todos estes anos, e fomos continuando a manter as conversas (nos bons restaurantes portuenses que eu era obrigado a encontrar quando ele cá vinha, ou nos excelentes que ele fazia questão de me dar a conhecer quando ia eu a Lisboa) Não tem conta as ideias que ficaram por concretizar. Talvez algumas ainda sejam possíveis. Agora sem ele. Mas sempre com ele.
Até sempre JPC”.
todos os textos deste Boletim: Júlio Eme.
Um grande obrigado aos ilustradores deste Boletim: Filipe Abranches, João Fazenda, Miguel Rocha, Nuno Saraiva e Pedro Burgos, amigos e parceiros na história da Bedeteca.
Horário
A Bedeteca está aberta de Quarta a Sábado, das 15h00 às 19h00. Visitem-nos.
Até ao próximo Boletim!







