Boletim Bedeteca #10.2
Nesta segunda encarnação do Boletim #10, desenvolvemos mais conteúdos relacionados com a programação pensada para o resto deste ano. Mas não só. Também falamos sobre autobiografias e autoficção.
Pashmina - uma exposição de Diniz Conefrey
Diniz Conefrey é um dos mais consistentes e persistentes autores nacionais. A galeria Mundo Fantasma já anteriormente organizou exposições a partir da sua obra: Memorias Topográficas (em 2010) e Histórias Gravadas da Quarto de Jade (com Maria João Worm, em 2019).
Desta feita mostramos uma selecção dos belíssimos originais do seu último livro Estância do Sino Coberto (edição recente da Quarto de Jade) numa sequência pensada especificamente pelo autor para esta exposição.
Vamos ter oportunidade de conversa com ele sobre esta sua obra e sobre o seu percurso.
Para conhecer melhor o autor e a sua obra sugerimos uma visita à Cronologia da BD Portuguesa.
Um novo autor e um novo livro: Canalha Borrada
O professor entrevista o aluno. Marco Mendes fez quatro perguntas a Zé Lázaro Lourenço sobre a sua estreia na BD depois do mestrado realizado nas Belas Artes.
A canalha borrada com os avós numa “fotografia” da época
1 - Há um ano atrás o livro que agora vais publicar ainda não estava começado. Geralmente as pessoas demoram anos a desenvolver a sua linguagem, o seu método. Já tinhas experimentado outro tipo de histórias antes? Como foi o teu percurso na BD até chegares aqui?
1 - Comecei a desenvolver este livro a 2 de janeiro de 2025, mas já o queria fazer há anos. Andava sempre a pensar nele e queria, de alguma forma, dar um palco merecido a todas estas memórias. Mas ainda não tinha encontrado a forma certa de as partilhar com o público.
Acabei por perceber que a BD era o meio ideal, fui motivado por ti, numa disciplina do Mestrado de Ilustração na FBAUP. Apesar de ter começado isto nas Belas Artes, este livro não tem nada de académico...
Eu tinha pouca ou nenhuma experiência em fazer BD, o meu trabalho estava mais virado para a ilustração e graffiti. Por isso, todo o processo acabou por ser completamente intuitivo. Sinceramente, eu sabia pouco sobre BD e nada sobre como se devia fazer uma. Fiz da forma que quis, sem regras, sem me influenciar diretamente por nada.
Acho que isso acabou por tornar o livro muito transparente e genuíno… quase “virgem”, no bom sentido. E acaba por casar bem com a própria história, que fala de uma infância e pré-adolescência inconsciente.
2 -Agora que o “Canalha Borrada vai sair, já está outro livro na calha. Que história é essa, e quando pensas terminar?
2 - Canalha Borrada foi o começo. Já estou a trabalhar noutro livro que recua bastante no tempo — mais ou menos de 1910 a 1980 — e que conta a história dos meus bisavós e dos meus avós.
Este novo livro segue um estilo diferente do anterior. Quero explorar novas abordagens e inovar, para cada projeto ter uma identidade própria.
A história começa com os meus bisavós e ilustra a pobreza e os problemas do país naquela época. Depois acompanha toda a vida dos meus avós e termina com o regresso do meu avô da guerra colonial. Pelo caminho fala de amor, crítica política, doença mental, desigualdade social e, claro, muito humor.
O livro parte de entrevistas que fiz aos meus avós, nas quais eles contam o seu percurso de vida. Vai ser um trabalho mais sério do que o Canalha Borrada, mas mesmo assim com um toque de javardice — porque algumas histórias também vão para esse lado.
Vai ser um projeto extenso, ainda não faço ideia do número de páginas, mas o plano é ter tudo pronto no verão de 2026.
3 - Na tua obra representas a tua família, os teus amigos. Como foi para eles verem-se retratados?
3 - O meu avô, apesar de não perceber muito bem o sentido de leitura da BD, ficou mesmo feliz. As histórias de que gostou mais foram, claro, as dele e da minha avó. Só me sugeriu que não desenhasse tantas pilas, porque acha que os meus professores não gostam de as ver, e me podem prejudicar por causa disso.
A minha avó, infelizmente, nunca teve a oportunidade de aprender a ler, mas adorou todos os desenhos e ainda me revelou a receita dos bolos caladinhos de Santa Maria da Feira, que está na página 22.
O meu primo parece ter gostado, mas só leu umas coisas por alto. Ainda assim, está sempre a contar estas histórias do livro a diferentes grupos de amigos e acha que fiz um bom retrato dos acontecimentos.
A minha prima já leu com atenção as páginas dela e adorou, principalmente as bochechas dos bonecos.
Acho que todos se sentem homenageados, mas cada um mostra isso de formas diferentes.
4 - No panorama nacional e internacional, que coisas andas a ler, e que obras foram mais marcantes para ti? Existem alguns autores ou editoras que sigas com particular atenção?
4 - Ando a ler dois livros do Robert Crumb que encontrei em segunda mão a bom preço. Antes disso tinha lido Simon Hanselmann e Art Spiegelman.
A nível nacional, as minhas “bíblías” são o Macaco Tozé e O Pénis Assassino, do Janus. E também as revistas que editaste com o Miguel Carneiro na primeira década de 2000 (a Cospe Aqui, por exemplo).
De editoras tento acompanhar as publicações de A Seita e da Chili com Carne.
Entrevista por Marco Mendes
As nossas parceiras da Goteira voltam a propor: “Bring your own book”
Escolha o seu próprio livro e venha conversar connosco (foto Júlio Eme)
Vamos para um total de oito sessões organizadas pelo colectivo Goteira. O grupo constituído por Amargo, Bia Kosta e Rita Mota iniciou uma colaboração com a Bedeteca desde a primeira hora, e assumiu assim a organização de um ciclo regular de conversas sobre obras de BD (começando pelo Palestina de Joe Sacco), onde preparam um guião de leitura, convidam autores para para nos virem falar de uma obra da sua eleição (e já tivemos Ana Margarida Matos, Rudolfo da Silva e a própria Rita Mota) ou mesmo desafiam os participantes a trazerem (e falarem) sobre o a sua própria escolha, o tal B Y O B.
Que volta agora, um ano depois da primeira e divertida experiência, e constitui uma excelente oportunidade para cada um falar sobre a sua obra de eleição e partilhar a paixão com o vizinho do lado.
No dia 3 de Dezembro às 19h00. Inscrições aqui.
Autobiografias e autoficções - 10 obras que deixaram marcas
Marjane Satrapi esteve no Porto, em 2001, na última edição do Salão Internacional de BD do Porto. Vinte e cinco anos depois da sua edição, o seu Persepolis está à cabeça dos livros do século XXI para a revista Nouvel Obs. E abre também este artigo do Pedro Meleiro.
Persepolis, Marjane Satrapi (Irão/França)
Marjane conheceu o Irão antes e depois da sua viragem com a Revolução Islâmica. O golpe de estado de 1953 orquestrado pelo Ocidente permitiu a consolidação do poder do Xá, que só viria a terminar em 1979 depois de meses de paralisação e resistência popular. Mas Marjane, na altura com 10 anos, passou a ser obrigada a usar véu pela primeira vez na escola e a separar-se dos seus colegas rapazes. A revolução que se deu não foi a esperada por revolucionários como os pais de Marjane, e as imposições do novo regime xiita começaram a ser cada vez mais evidentes e estritas. A primeira metade de Persepolis acompanha estes anos de transformação profunda do Irão, onde as mulheres são as mais afetadas e empurradas para uma vida dedicada ao lar e à família. Mas em 1984 os pais de Marjane conseguem um pedido de exílio para que a filha pudesse estudar na Áustria, onde passa a viver em casa de uma tia. Surge então um novo período de inadaptação a uma realidade de centro da Europa, tão contrária a tudo o que estava a acontecer no Irão. Persepolis divide-se então em duas fases da vida da autora: os seus últimos anos no Irão, onde a transformação é externa a Marjane; e os seus primeiros anos na Europa, que se caracterizam por um período de transformação interna. Persepolis é talvez a autobiografia mais óbvia desta lista, mas não é por isso que deixa de ser uma obra plena de amor à liberdade individual e coletiva.



L’Ascension du Haut Mal / Epileptic, David B. (França)
L’Ascension du Haut Mal é uma compilação de vários episódios da vida do autor e da sua família, com um maior foco na infância e adolescência durante os anos de 1970. O tema central que engrena esta obra de David B. são as crises epilépticas do irmão e é na relação conturbada entre os dois que a obra mais se demora. A partir destas crises o autor explora as dinâmicas e transformações familiares decorrentes da procura de uma solução para a crescente gravidade e frequência das crises epilépticas. No contexto em que David B. cresceu esta é uma doença altamente estigmatizada na sociedade e para a qual a ciência não consegue dar resposta no caso particular do irmão de David B. O que se segue é uma espécie de road trip por todo o tipo de tratamentos em medicina alternativa e em comunas de base macrobiótica, todas elas ignorantes em matéria de epilepsia. Não obstante a falta de respostas para este flagelo familiar, não são menos receptivas à dimensão monetária e por isso procuram dar soluções que terminam quase sempre no agravamento do estado de saúde do irmão. Como que mergulhado num universo de escapismo paralelo ao real, David lida com os problemas reais transformando-os em fantasias ilustradas, que surgem encarnadas sob a forma de figuras de cariz histórico, em confronto direto com os protagonistas na pele de heróis, por justaposição à realidade onde só a própria epilepsia sai vencedora. Uma obra profundamente catártica e que só pôde ser transposta para o papel numa fase adulta, com a distância necessária para que David B. se dispusesse a recordá-la.
Pilules Bleues / Blue Pills, Frederik Peeters (Suíça)
Na altura em que Frederik Peeters começa a escrever Pilules Bleues, o trabalho de Frederik Peeters para banda desenhada era até então reduzido e quase sem alcance comercial. Seguindo a sugestão de uma amiga e certo de que este novo trabalho acabaria por ficar também esquecido, Peeters permitiu-se escrever uma BD num tema pessoal e ainda recente, uma espécie de diário ilustrado de confidência dos seus receios e inseguranças concebido em apenas três meses. Pouco antes de se lançar a Pilules Bleues, Peeters tinha começado a relacionar-se com Cati, que conhecera anos antes na escola secundária, e que agora tinha um filho de 4 anos, fruto de uma relação anterior. É neste contexto de intimidade que Cati partilha que ela e o filho são seropositivos, notícia partilhada de um lugar de culpa, mas recebida de um lugar de amor e que permitiu reforçar esta relação recém estabelecida. O que se segue é uma história que se foca na rotina dos tratamentos a que Cati e o filho estão sujeitos para controlar os sintomas provocados pelo vírus do HIV e reduzir o risco de transmissão. Em 2001, numa altura em que íamos ainda a menos de meio caminho desde a epidemia dos anos de 1980, Pilules Bleues surge como uma importante autobiografia no combate ao real flagelo das pessoas seropositivas e que mais continua a matá-las e marginalizá-las ainda hoje: o estigma social. Nalgumas questões esta é felizmente uma obra fruto do seu tempo, mas nunca deixou de ser relevante no que respeita à empatia e amor ao próximo.
The Man Without Talent / Munō no Hito, Yoshiharu Tsuge (Japão)
Foi a partir do fim que o público ocidental ganhou acesso à obra de Yoshiharu Tsuge. The Man Without Talent começa com um homem que decide montar um negócio de venda de pedras junto a um rio. Não são pedras raras nem preciosas nem evocativas de coisa alguma: são apenas pedras apanhadas no rio próximo de casa do protagonista, que as seleciona e coloca para venda neste meio rural onde pedras do rio não escasseiam e onde ninguém tem o que lhes fazer. Ao longo dos capítulos acompanhamos um protagonista a deambular por outras paradas, cruzando-se com vendedores de todo o tipo de tralhas. Este modo de vida é recebido com frustração pela mulher do protagonista, que vê no dom do marido para o desenho como a única forma de sustento viável e capaz de os retirar da miséria, uma ideia de prosperidade à qual o protagonista teima em não ceder. A metáfora aqui engendrada pelo autor parece apontar para a necessidade do protagonista aparentar um propósito na sociedade, mas usá-lo para se desvincular e camuflar da vida secular: ser vendedor, mas encarregar-se de nada vender. The Man Without Talent foi serializado pouco antes do próprio autor ter desistido de vez da sua carreira enquanto ilustrador, em 1987, o que intensifica o teor premonitório e autoficcional desta obra. O que é também particularmente intrigante neste trabalho é que surge quase duas décadas depois do auge do seu trabalho para a revista Garo, que era um tempo mais experimental e ritmado pelos autores e sem as obrigações editoriais que definem o contexto em que The Man Without Talent surge.



The Secret to Superhuman Strength, Alison Bechdel (EUA)
Alison Bechdel é aquela nerd por atividade física que tem de estar sempre em movimento e não sabe quando parar. Toda a sua vida envolveu-se nas mais variadas práticas desportivas: body building, esqui, ciclismo de montanha, artes marciais e até tendências passageiras do mundo bizarro do fitness. The Secret to Superhuman Strength é uma autobiografia onde Bechdel traça um paralelo entre a prática desportiva e o impacto que isso teve em cada fase da sua vida familiar, romântica e profissional, desde a infância até à idade sénior. Aqui vamos percebendo como é que o posicionamento das marcas desportivas e a imagem dos atletas afetam a percepção que Bechdel tem do seu corpo e a induzem a um modelo de imagem discordante com aquele que a sociedade espera dela enquanto mulher cis. Através desta obra também acompanhamos o início da carreira de Bechdel na área editorial, mas é na banda desenhada que vai ganhando notoriedade quando em 1983 começa a publicar em jornais as tiras cómicas semanais Dykes to Watch Out For. O processo criativo para Fun Home e o Are You My Mother? surgem mais tarde, quando Bechdel já estava estabelecida na sua casa remota e desvinculada dos grandes centros urbanos. Uma obra densa que pode ser melhor apreciada por leitores familiarizado com o trabalho de Bechdel, mas que também desperta curiosidade para o movimento transcendentalista e os seus escritores.
Mélody, Sylvie Rancourt (Canadá)
Mélody é stripper num clube noturno de Montreal nos anos de 1980. Para além de servir bebidas e danças eróticas à clientela, também distribui banda desenhada que ela própria escreve e desenha no seu tempo fora do clube como forma de ganhar algum dinheiro extra. Mélody é o alter-ego de Sylvie Rancourt no clube e como é retratada ao longo das sete histórias que compõem a obra principal. Estas focam-se nas suas vivências no momento em que inicia a atividade noturna como stripper para fazer face às despesas conjugais da vida na cidade. Em contrapartida, o namorado de Mélody está mais interessado em enveredar por negócios ilícitos e que empurram o casal para situações complicadas e com polícia à mistura. Mas a par com as peripécias na vida de Mélody, também há várias passagens que levam a uma reflexão sobre a condição de Sylvie enquanto mulher num meio hipermasculino, repleto de assédio e outras formas de abuso não concordantes com os tramites da profissão que Mélody desempenha. Este é um testemunho de autoficção invulgar e pioneiro pela maturidade demonstrada em abordar temáticas íntimas da autora, como o trabalho noturno, modelos de relações abertas ou orientação sexual num contexto social repleto de desejo e experimentação.
The Playboy, Chester Brown (Canadá)
Aos 15 anos, Chester compra a sua primeira revista Playboy. É à saída da igreja que decide ser o momento certo para ir até uma loja de conveniência longe de casa e cometer o ato “pecaminoso”, em total segredo e sem deixar rasto. A relação de obsessão e dependência que o autor vem a desenvolver pelas Playmates da revista são o tema central de The Playboy, publicado num período autobiográfico da obra de Chester Brown. É a partir deste momento que a revista erótica passa a fazer parte de um ritual de masturbação a que o protagonista se entrega de forma compulsiva. Consumado o ato, segue-se culpa, vergonha e a necessidade de redenção, que costuma culminar em eliminar ou esconder o objeto de pecado, até uma próxima “recaída”. Este modo de atuação vai sendo repetido e refinado ao longo dos anos, inclusivamente durante relacionamentos íntimos, onde nem a presença física das suas companheiras está à altura das Playmates que preenchem o imaginário do autor. Escrever e publicar The Playboy surge então como um ato de confissão de um comportamento que Chester reconhece ter impacto nas relações que mantém com as pessoas à sua volta. O teor auto-depreciativo e a temática da obra não vão cair bem com todo o tipo de leitores, mas é indiscutível o talento com que Brown materializa este seu objeto de desejo-repulsa, atribuindo-lhe uma composição refrescante e um traço delicado e expressivo, uma quebra com o estilo que o caraterizava até então.



My New York Diary, Julie Doucet (Canadá)
História publicada em três partes para a Dirty Plotte, My New York Diary retrata a mudança de Julie Doucet da sua Montreal para Nova Iorque em 1991, impelida por um amigo por correspondência e futuro namorado. Vivem juntos em Washington Heights, a “Little Dominican Republic” que é retratada por Julie como um bairro pobre, sujo e problemático na zona norte de Manhattan. O isolamento e insegurança sentidos por Julie potenciam o consumo de álcool e drogas em casa, que por sua vez agravam os ataques epilépticos com os quais já estava familiarizada. A produtividade também leva por tabela, isto numa altura crítica em que começa a desenhar as primeiras histórias para a Dirty Plotte a serem publicadas pela Drawn and Quarterly, na altura uma editora ainda desconhecida. Mas é também nesta altura que é convidada para uma festa da revista RAW, onde conhece figuras relevantes da BD americana, como Art Spiegelman, Kaz, Françoise Mully, Charles Burns e até Leslie Sternbergh, colaboradora na revista feminista Wimmen’s Comix. Também o namorado de Julie produz BD mas a falta de trabalho deixa-o falido, amargurado e com uma atitude paternalista perante as decisões de vida e carreira de Julie. Esta relação conturbada chega ao fim quando a autora muda-se sozinha para o bairro de Brooklyn em 1992, antes de ir viver para Seattle. O traço de Julie Doucet é reconhecível pelo uso de cenários muito densos em detalhes, personagens bastante expressivas e balões sempre desenhados no limite do texto, o que culmina numa mancha visual que não pretende deixar espaço para respirar. O que diferencia este de quase todos os trabalhos de Julie para a Dirty Plotte tem a ver com o teor autobiográfico de My New York Diary, por comparação com a temática de sonho das suas primeiras histórias.
A Drifting Life / Gekiga Hyōryū, Yoshihiro Tatsumi (Japão)
Os primórdios da manga para um público adulto não acontece num momento só e também não é essa a resposta que A Drifting Life nos faz chegar. Há um conjunto de dinâmicas complexas que levam ao surgimento do movimento gekiga nos anos de 1950 e que elevam a fasquia etária das obras que se inserem nessa temática, num tempo pós-guerra com uma sociedade ainda profundamente abalada pela escassez. Estreitamente inspirada na cultura norte-americana da literatura hard-boiled e do cinema policial que ia chegando às grandes cidades japonesas, Yoshihiro Tatsumi propõe-se a traçar uma linha temporal a partir da sua infância e da dos seus conterrâneos investidos na criação de manga na área metropolitana de Osaka. Em paralelo, Tatsumi atira para cima da mesa acontecimentos culturais e políticos, por vezes sem grande relação, criando uma manta retalhada de referências que ajudam a compreender o contexto da altura, mesmo para um leitor estrangeiro desatento ao que acontece no Japão. Tatsumi cria então um tomo fascinante e muito acessível de autoficção, que olha na primeira pessoa para a indústria japonesa de aluguer de manga e a profunda transformação que sofreu com a introdução no mercado das primeiras revistas não infantis, rapidamente disseminadas para outros pontos do país.
Família, Júlia Barata (Portugal)
Júlia Barata é uma Portuguesa que se atira a grandes voos. Para além de ter feito a travessia para a Argentina há já vários anos, também seguiu caminho para a ilustração, tendo tido a arquitetura como ponto de partida. É também uma funâmbula entre a autobiografia e a autoficção, primeiro em Gravidez e Quotidiano de Luxo e mais recentemente em Família, publicado como uma espécie de notebook. Sem surpresa, Família gira em torno do núcleo familiar de uma personagem que, atirada para um programa de centrifugação de realidade, tenta conciliar o trabalho como arquiteta com a responsabilidade de cuidar de um filho e de lidar com a vida conjugal. Deste mocktail fazem ainda parte as noites mal dormidas e os dias mal vividos, a vontade de perrear pela noite fora, a saudade de ser filha e não ser mãe, a angústia de estar a milhas de distância da família alargada, ainda residente em Portugal. É uma reflexão sobre as mudanças a que nos propomos na vida, incertos de estarmos prontos para elas, e das implicações que têm naquilo que conhecemos até então. Estilisticamente, é uma banda desenhada desprovida de contornos mas também de contornos bastante invulgares, onde os desenhos seguem livres pela página, sem pranchas, tiras nem vinhetas que os separem e os impeçam de se sobreporem para transmitir movimento. Se foi das BDs que mais mexeu comigo não foi só por causa dos balões vomitados pela boca das personagens, mas também ajudou.
Textos de Pedro Meleiro / Bedeteca
Horário
A Bedeteca está aberta de Quarta a Sábado, das 15h00 às 19h00. Visitem-nos.
Até ao próximo Boletim!






